O documentário “Dedo na Ferida”, lançado em 2018, percorre a realidade do macro ao micro para abordar contradições do sistema financeiro mundial. O diretor traça um panorama a respeito da influência do capital não só na economia, mas na política e, consequentemente, na vida de cada indivíduo, considerando o contexto internacional e brasileiro.

O roteiro inclui diversas entrevistas com nomes da educação, economia e política, como os ex-ministros Celso Amorim (Brasil) e Yanis Varoufakis (Grécia), e outras personalidades como o engajado cineasta grego Costa-Gravas, o geógrafo David Harvey e Maria José Fariñas, especialista em sociologia jurídica. As falas tratam de direitos sociais, crises dos últimos anos, desemprego, miséria, ressurgimento de movimentos de extrema-direita.

O longa traça a lógica do mercado e os papéis dos sujeitos diante dessa realidade. Enfatiza as desigualdades econômicas e sociais estimuladas pelo sistema capitalista, que fortalece a concentração da riqueza nas mãos de poucos e os lucros exorbitantes dos bancos pelos continentes.

O filme exprime reflexões por vários pontos de vista, é informativo e didático. Mostra imagens de arquivo que elucidam o texto e utiliza gráficos com base em dados, de 2005 a 2010, que permitem comparações. Uma delas é como a riqueza dos pobres diminuiu 38% enquanto a fortuna dos ricos aumentou 45%. Chega a ser mensurável a crueldade que envolve as relações entre assalariados, empregadores e empresas milionárias. São fortes elementos para pensar o mundo de décadas para cá, sem perder sua atualização, ainda mais neste ano representativo para o Brasil, com conturbações políticas e eleições.

Como reflexo, além das crises e dificuldades que as populações passam, Tendler foca a atenção na trajetória de Anderson, um morador de Japeri, Baixada Fluminense (RJ). O município tem o menor Índice (0,659) de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado do Rio. A informação, apurada com base nos indicativos de acesso à educação, longevidade e renda, foi divulgada via Nações Unidas pelo Desenvolvimento (Pnud) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O personagem, como tantos outros brasileiros, não teve oportunidade de se dedicar aos estudos. Prioriza o trabalho por necessidade de sobrevivência. Ele acorda muito cedo, enfrenta trânsito desgastante e, após quase 3 horas, chega ao trabalho, em Copacabana. A volta pra casa não é diferente.

Segundo Silvio, mostrar essa relação entre o micro e o macro escancara a perversidade deste último. Para o diretor, “ao invés de fazer uma tese, mostrar personagens, é melhor discutir o problema mostrando como incide nas pessoas”. Diz ainda que “não adianta fazer um filme com grandes pensadores e não ter o Anderson, que é um contraponto. Não está sendo discutida só uma ideia; está sendo discutida uma vida”. “Dedo na Ferida” mostra que as pessoas estão excluídas até do sistema capitalista exploratório e que estamos vivendo uma crise social gravíssima.

Tendler comentou que o grupo de teatro de Japeri, que participa do filme, tem componentes que são amigos de Anderson. O personagem do documentário mora a duas quadras do local de ensaios e nunca visitou o local, muito menos assistiu a alguma apresentação. Este simples exemplo é mais um reflexo do sistema financeiro e mercadológico da sociedade. O acesso à cultura também fica comprometido.

O próprio diretor disse que circulou na Baixada em busca de um cinema que pudesse exibir o filme para que a população de Japeri e arredores pudesse ter contato com a discussão e, até mesmo, se ver e pensar sobre a situação em que vive. Em Nova Iguaçu, por exemplo, foi informado a ele que todas as sete salas de cinema do shopping estavam ocupadas com Jurassic World e que esse tipo de filme não interessava.

Silvio Tendler enaltece a importância dos cineclubes para entender cinema. Ele acredita na educação pela imagem, no uso didático do cinema. O diretor terminou “Dedo na Ferida” em 2017 e diz que “ainda está fresco” nele e que o tema é atual, ainda mais em ano de eleição. Considera que “o cinema foi feito para ser debatido, não para ficar numa caixinha, num cinema”. Afirma que “faltam projetos de discussão da sociedade que desejamos viver. Falta nos organizarmos para atuar com projetos políticos em todas as frentes”. Demonstra sua paixão por cineclubes, ressaltando que devemos sair de nossos pequenos casulos e debater. Para Tendler, os cineclubes permitem o diálogo. Por isso, tem ido com frequência a várias instituições para dialogar sobre o filme. E comenta: “surgem ideias e a gente não se sente tão sozinho”.

CINECLUBE COM SILVO TENDLER (1)

  • Esta sessão foi realizada no dia 9 de agosto de 2018, na UFRJ, no Campus da Praia Vermelha, viabilizada pelo Cineclube Pedagogia das Imagens – Faculdade de Educação.   Foto: Facebook Silvio Tendler.

“Dedo na ferida” está disponível no Youtube.

Mas, não perca a oportunidade de estar nos cineclubes para assisti-lo, debatê-lo e, quem sabe, melhor ainda com a presença do autor.

Por Clécia Oliveira – Jornalista e Produtora